segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O Bar do Rato

Sempre que podia e sempre podia, Afonsinho dava uma passada no bar do Rato, para refrescar as idéias e inteirar-se dos fatos. Lá, a conversa era, diariamente, ou melhor, noturnamente, muito animada.

Futebol, política, religião, conjuntura, etc, não só eram assuntos permitidos como quase obrigatórios. Um balcão e quatro paredes encerravam um solene parlatório neutro, gratuito e rigorosamente isento para passar-se a limpo a Pátria, os patriotas, a humanidade, o céu e a terra.

Naquela noite, quando Afonsinho chegou, a temperatura já estava alta. O assunto centrava-se nessa dolorosa questão da fome e da miséria. Com a palavra e com a cerveja, estava Quiri, muito de pé e nada à vontade, fazendo sua doutrinação, já com vários apartes para atender:

-         Isso é obrigação do governo...

-         O governo mal pode com suas próprias calças, vai poder com um problemão desse tamanho? – comentou, criticamente, o ex-sargento Caçamba, a essas alturas quase na diagonal, no meio da cena.

-         Tem que poder – retemperou, sabiamente, Dr. Camalhoso, estendido em seu canto, atrás de seu reluzente anel de bacharel aposentado.

-         Tem que poder, concordo com o doutor, pra isso recolhe os impostos – atravessou Sinaleira, muito convicto, enquanto recarregava as químicas de seu estranho guaraná.

Afonsinho, recém chegado, ainda fora do clima, quis falar, mas foi cortado pela voz fina e penetrante de Silvério, respeitado e conhecido ex-oficial de justiça, com muitos mandados na conta.

-         Não tiro a razão do meu doutor, mas acho que nós todos temos a obrigação de dar uma ajuda a essa pobre miserável. Temos que fazer a nossa parte.

-         Que parte? Que obrigação? – saltou, enfurecido, Mofão, ex-candidato a muitos mandatos na Câmara de Vereadores, até então ocupado com seu sanduíche.

-         A parte de fazer o que o governo não faz – enfim, pôde falar Afonsinho.

-         Então temos que juntar forças para obrigar o Governo a fazer o que ele tem o dever de fazer e não faz – disse, vagabundamente, Joaquim, do alto de sua tranqüilidade, gerada no imponderável espaço compreendido entre um copo de caipira e um cigarro amigo.

-         Temos é que organizar a sociedade para um eficaz e decisivo combate à miséria – se soltou Afonsinho. Se formos esperar pelas providências governamentais melhor então acreditarmos que as galinhas um dia terão dentes.

-         Em véspera de eleições, eles se mexem – comentou Quiri.

-         Se nós fizermos a parte do Governo, seria justo que o Governo fizesse a nossa – falou mais uma vez, com ênfase, Dr. Camalhoso, em tom professoral.

-         As elites que põem e tiram os governos é que devem assumir essa responsabilidade – disse, incisivo, o gritão Ferrabraz, um sindicalista de granada no bolso do pijama.

-         Que elite, que nada! O assunto é sério! Tem gente morrendo e matando de fome – ponderou Afonsinho, tentando reconduzir a conversa para um plano mais razoável.

-         Ultimamente, tenho visto gente matando por um par de tênis, mas não por um prato de comida – atacou forte o ex-sargento Caçamba.

-         Isso é coisa de televisão, a realidade é bem outra – sustentou Afonsinho.

-         Olha, vou dizer uma coisa pra vocês: Vai chegar o dia em que metade da população não vai dormir de fome e a outra metade não vai dormir de medo dos que estão com fome.

-         Fome coisa nenhuma! Procura alguém para trabalhar, pra ver se acha!

-         Emprego todo o mundo quer, mas trabalho que é bom... Essa gente está habituada a pedir porque tem gente que está habituada a dar – perdeu a paciência Mofão.

-         A coisa não é bem assim – interferiu Silvério. Tem gente passando necessidade mesmo. Irmãos nossos. Pais com muitos filhos para criar...

-         Aí é que está o problema. Essa gente se multiplica como rato.Desculpa, Rato, nada a ver! Não podem ter um filho e têm dez. E ninguém faz nada?

-         A natureza fala e a gente cala – filosofou Joaquim, bebericando sua poção.

-         Temos que dar a maior força a esses Comitês de combate à miséria que estão se formando em todo País. Esse é o resgate da cidadania – discursou Afonsinho.

-         Não me pise no ponche, meu jovem. Por favor não entre nessa seara – recomendou, com educação, Dr. Camalhoso.

-         Está certo, está certo. Mas vamos à luta. Temos que fazer alguma coisa.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Um minuto de silêncio

Pois a festa momesca teve lá seus percalços, este ano, um Cerro Fino. O Bloco dos Bambas – elevado, provisoriamente, à categoria de Escola por seus muitos feitos em prol da comunidade carnavalesca, teve contratempo agudo, justamente na véspera de botar seu samba na rua: Morre-lhe a vetusta e nonagenária mãe de seu Presidente. Foi o caos. A comoção foi geral. Houve até quem dissesse que tal perda era, deveras, irreparável. Tratava-se da mãe do líder, e ia desta para melhor em hora, inegavelmente, injusta e imprópria.
A velhinha tinha dado sinais de desavença com a vida em agosto mas, enfim, resolveu expirar em fevereiro...
Foi decretado estado de calamidade pública no Bloco. A Diretoria resolveu que ficaria em reunião permanente. Argumentos de um lado, condolências do outro e não se chegava a um estágio de equilíbrio dentro do grupo. Na primeira rodada de conversações ficou resolvido que a Escola guardaria luto siciliano e não colocaria o pé fora da quadra. Os instrumentos, incansavelmente tangidos, tocados, afinados e lustrados, no correr do ano, foram solenemente guardados para oportunidade mais alvissareira.
Entardeceu, ventou, choveu e o Bloco serenou. Na manhã do dia D, o tão esperado dia de brilhar na avenida, as conversações foram reatadas. Muito debate, diversos e cansativos discursos e a indefectível questão do “sair ou não sair”, foi posta, novamente, na mesa. Protestos de um lado, ponderações do outro, a situação estava escorregando para a radicalização, quando falou forte o mais velho da tribo. Experiente, homem de muitas luas e muitos sóis, abriu um claro de silêncio para deixar seu argumento passar. Disse que, no fundo, sinceramente, uma coisa nada tinha a ver com a outra, pois apostava que a pranteada mãe do presidente, se ali estivesse, como de fato estava, seria a primeira a querer que a Escola brilhasse na avenida. Deu pano pra manga afirmação tão contundente. Lá na cozinha acendeu-se uma esperança, mas na sala as caras continuavam amarradas. Alguém levantou a idéia de resolver o caso na boca da urna, sintonizando o samba-enredo mais vencedor deste país, que era o da eleição geral, global e total. E assim foi feito. Contados os votos, venceu por ampla margem, a proposta de sair e botar pra derreter. Venceu, mas sob duas severas condições: Primeiro, não concorrer a prêmios e segundo, respeitar um minuto de silêncio lá, na hora suprema do evento.
Tudo acertado, instrumentos recalibrados, porta-bandeira nos trinques, bateria dando chispas, puxador afinado, saiu a escola encarando o samba/tema, pegando fogo. O samba corria solto mas a Escola, lá no fundo, estava triste e melancólica. Sambava, é verdade, mas com visível consternação. Na frente do Palanque Oficial o breque foi mortal. A evolução vinha num crescente ao som vibrante do “ala lá, ô, ô, ô,” e estancou de repente, como se aquele tivesse sido o último ato carnavalesco de todos os tempos. Silêncio total. As moscas foram, pela primeira vez, ouvidas no reinado de Momo. O próprio Presidente fez a senha de que o minuto estava se exaurindo. O maestro fez o gesto de que o minuto tinha acabado. No mesmo instante a massa foi despertada para a continuação do efusivo e contagiante “ala lá, ô, ô, ô...” - como se nada tivesse acontecido. Depois disso o Bloco, elevado provisoriamente à categoria de Escola, atravessou a noite e o resto da avenida espalhando samba e batuque por todos os lados – coisa de levantar defunto...
E assim, Cerro Fino provou, mais uma vez, que é possível juntar extremos; servir a dois senhores; conciliar teses e antitéses; unir sim e não; equilibrar querer e dever; amigar razão e paixão. Tudo é possível – desde que seja no carnaval... 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Leite no Portão

      Ao entardecer, era hábito tocar-se por diante uma vaca ou duas, rua a fora, para ser, doce e calmamente, ordenhada ao gosto do freguês.
         Depois que o General Mac Arthur disse que “juventude não é um período da vida e sim um estado de espírito”, não temo contar certas experiências pessoais de antanho que, como quer, denunciam uma longa jornada de primaveras.
         Do alto dessa sacada juvenil, tão estranha no estilo quanto absoluta no conteúdo, é que falo de um fato visto, vivido, acontecido e provado, há mais de 40 anos.
         No tempo em que os paralelepípedos e o asfalto ainda não tinham rendido as ruas de terra, pois, até em volta da praça houve formidáveis “peludos”, em dia de chuva, vendia-se (quase dado) leite, de porta em porta, espumoso, quentinho, gostoso, saído a gosto, da genuína embalagem original. Ao entardecer, era hábito tocar-se uma vaca ou duas, rua a fora, para ser doce e calmamente ordenhada ao gosto do freguês.
         A caravana sempre muito lânguida, mas providente, ia parando aqui e ali, saciando a sede, a melancolia e a tradição de uns, outros e outros. Juro que um dia flagrei o sol do ocaso, aceso de curiosidade, fazendo tempo, atrasando a marcha, só para assistir a engraçada cena. Digo mais – doa a quem doer – que vi o astro-rei morrendo de rir, mais do que de entardecer, daquela vista insólita, muito humana.
         A nossa vaca era de uma mansidão patética. Cruzada de Normando, espatifava, lenta e ruidosamente, seus pesados cascos, rua a dentro, deixando um rastro de odor original e sábias pegadas. No portão armava-se o circo. Uma bandeja cheia de canecas vinha lá de dentro. Do lado de fora, a gurizada inquieta reinventava travessuras. No rigoroso limite de seus botões, no mínimo dois adultos, suficientemente sérios, punham ordem da farra. Meia dúzia de desocupados emprestavam brilho ao encontro.
         A vaca, imperturbável, bovinamente ruminava, enquanto o conhecido leiteiro, muito dono de sua função, multiplicava mãos, gestos e gentilezas. Um copo para o menino, uma caneca para a menina. Bastante espuma para um, menos para o outro. E assim morria o dia, de barriga cheia e alma vadia...
         Naquele tempo, servia-se leite de casa em casa, com vaca e tudo. Não havia saquinhos nem prazo de validade do produto. Era tudo feito de forma direta – sem intermediários ou subterfúgios...
         Eu conto o que sei, o que vi, e o que experimentei! Disso mais dirá o sol daquelas tardes, testemunha fidedigna dos fatos que relatei.
         Fala sol...! Se faltar o verbo, que fale a lua, a estrela, o corisco, a fada ou a fantasia...

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A Crítica

Das histórias de D. Pedrito antiga, gosto muito de uma que conta a passagem de dois compadres, que vinham pela estrada do Ponche Verde, lá pela década de 40, a bordo de um Modelo A, ou coisa que o valha. Lá pelas tantas, disse o que vinha de passageiro, para o que estava no volante:
-         Mas tchê, tu não consegues nem enxergar os buracos!
-         É, e tu enxergas porque não vens manejando!
Tirando o conteúdo anedótico do causo, cabe em qualquer e sob os mais diversos pretextos, uma ilação sobre o teor crítico do incidente.
Vejam que o motorista dava-se por satisfeito, a braços com tarefa tão complicada que era a de guiar. Ao passageiro sobrava tempo e atenção para observar os solavancos. A exaustiva e exclusivista incumbência da pilotagem era ação quase sobre-humana, que ocupava todos os sentidos e exigia heróica destreza. O outro, apenas um passageiro sofrendo, solidariamente, os incômodos percalços da estrada, adensados pela intrepidez do motorista, reclamava, em altos brados e alguns galos na testa, a direção perigosa.
A lição que fica e ficará é a de que a crítica sempre estará mais à mão de quem não tem as mãos ocupadas. E não há mérito nem demérito nisso. É um fato da vida, do mundo e das circunstâncias. E, observem, bem atual e sempre universal. Se transportarmos a história para nossa relação com o Poder Público, por exemplo, veremos que tudo se encaixa. Tantas e tantas vezes reclamamos do piloto dessa mau incauta chamada Administração, quando, na verdade, a máquina é ingovernável, numa estrada tão ruim. Sejamos, no mínimo, tolerantes ou atentos e ativos co-pilotos, ajudando na travessia, em nome da boa chegada e contra os maus torcicolos...


Escrever

      A mórbida sanguessuga grudara-se, vagarosamente, na perna de Rita e um grito de medo/surpresa repicou nas suaves ondulações da lagoa.
         Um ventinho clássico, enrugando a tarde, fustigava a melena de Romário, estancando na barranca, de olho na bóia. Maria coçava, preguiçosamente, a palma da mão esquerda, campeando, no vazio, muitas luas para seu sonho de menina. Pitangas bravias tingiam a boca inexperiente de Lucas. Milena penteava-se com moleza e graça. Chico corria, obstinadamente, atrás de uma bola murcha. João quebrava gravetos com determinação e Pedro palitava os dentes com mansidão. Um bando de marrecas piadeiras pontilhava um tosco V no céu rosado e os galhos pendentes do velho salso choravam a morte de mais um dia de criação...
         Bem que esse poderia ser o bom começo de uma história simples, comum, promissora de emoções e repleta de qualidade humana. Esse flash de uma mera convivência familiar, espraiada em um dos milhares nichos de nossa rica e agredida natureza, poderia traduzir a grandeza das relações inter-pessoais embutida na misteriosa gruta do aleatório. O papel aceita tudo. Melhor dito, possibilidade extrema. Tal como no sonho, tudo pode acontecer. Escrever é destrancar cancelas existenciais e arregaçar entranhas emocionais, sem medos e sem culpas, para o que der e vier. Escrever é saltear tijoletas, pisando as desiguais, pulando linhas, num bailado tresloucado em busca de... liberdade.
         Escrever é vencer, sem tréguas, o soluço do corriqueiro. Escrever é desafiar, perigosamente, a suspeição do impossível...
         Na verdade, muito mais se exige na arte/ciência de escrever e convencer.
         A forma tem seu valor, mas o conteúdo é que realmente move e comove. A lógica não é imprescindível. A coerência é. O encadeamento é quase desprezível mas o comprometimento do contador é fundamental. Não basta narrar, é preciso sentir, se possível vivenciar, um tanto e um quanto do que se narra.
         O contador tem que sagrar suas próprias veias para revolucionar a alma do leitor. Escrever não é um ato impune. Escrever é a espontânea auto-condenação ao severo castigo em busca da expiação para a transcendência. Transcender é o limite para o ilimitado...
         Escrever é um meio e o fim será sempre incomensurável. No fundo, escrever é um tique subjetivo que toca o próximo pela semelhança ou pela imensa diferença sentimental ou circunstancial. O escrito é, no íntimo, o arrimo universal da inquietude das almas que crescem e por isso... padecem...!
         Escrever é a sufocação da mediocridade pelo supremo sopro da inspiração.
         Escrever é dedilhar estrelas, tanger nuvens e percutir o infinito.
         Escrever é o grito que a humanidade faz ecoar para viver e renascer.
         Esse o ato de escrever. E para os céticos ou desligados é bom que se diga que escrever é tudo isso e mais, porque será apenas loucura e insensatez pensar que o mundo na humanidade não será tão fundo, para sempre criar assombros – separando os dedos e juntando os ombros.
         Escrever é o sublime vício de liberdade... 

terça-feira, 30 de agosto de 2011

RECEITAS LUSITANAS


“Pão de hoje; carne de ontem
e vinho de outro verão, fazem o
homem são”.
        
         Meu avô, português, com quem convivi, fraternamente, até a penúltima dobra de minha adolescência, sempre cultivou respostas lúcidas para indagações febris. Como bons amigos, seguidamente trocávamos conversas úteis, francas e afetivas. Uma distância de quase sessenta anos no tempo cronológico, era quase insuficiente para criar diferenças ou levantar barreiras nesse relacionamento, que hoje invoco com tanta saudade.
         Falávamos de política, economia, religião, custo de vida, saúde, comidas, desmandos governamentais, progresso de Portugal, atraso do Brasil – filosofia teórica e prática – e coisas do dia a dia...
         Raramente falávamos de futebol! Tal rareza encontrou seu ponto extremo na Copa de 66, quando nossa Seleção perdeu, fragorosamente, para a equipe portuguesa. Evitamos o assunto para desviarmos prováveis incômodos e desconfianças. De carnaval, não falávamos, mas sempre coloquei ouvidos para apreciar, em silêncio, sua opinião, rigorosamente crítica, a respeito dessa festa, de muito gasto e pouco proveito.
Fundidas à imagem desse amigo, estão as tiradas, as observações, as críticas, as opiniões, os conselhos, as espontaneidades e as indefectíveis receitas, tão lusitanas na forma quanto humanas no conteúdo. Nascido na região de “Trás os Montes”, província de Mirandela, a um palmo da Espanha, aprendeu a fermentar a folclórica rivalidade com os fronteiriços. E para dizer sem rebate, sentenciava: - “Da Espanha, nem bons ventos nem bons casamentos”. A quizila histórica era de fundo cultural ou circunstancial, certamente.
Mas tão antiga que não valia a pena saber a origem.
“Um bom genro – beije-se-lhe os pés”.
“Nada mais caro e perdulário do que o desnecessário”.
“Para um bom vento há sempre um mau tormento”.
Sabedoria fácil, direta, objetiva e ligeiramente ousada que me passava sem custos e condições. Certa vez, saímos pela cidade pesquisando preços de pedra de isqueiro. Se alguém se choca com a diminuta valência dessa missão, que não esqueça que toda a areia da praia é feita de grão em grão...
“Ora, não me venhas de borzeguim ao leito” – costumava dizer para neutralizar a chatice de certos assuntos ou atitudes que vêm à tona em hora imprópria.
Sentado de costas para o vazio, olho, com mansidão, as marcas que o tempo fez. Encontro nelas o contorno da promissão e vários riscos que a vida e a imensidão rascunham de graça ou por vocação.Olho o espaço e vejo todos. Olho o tempo e vejo tudo. Para que eu olhe e sempre veja, comerei o pão de hoje e a carne de ontem, regados pelo vinho do outro verão. Só assim poderei alimentar a esperança de quem, um dia, outros verão...

terça-feira, 23 de agosto de 2011

SE NÃO ME FALHA...


Quem já não teve tropeços de memória? Sim, aquele “branco”, justo quando se quer lembrar o nome de um amigo, um número de telefone, o compromisso inadiável, a conta para pagar, o aniversário, o horário, a fisionomia, a chave, documentos, momentos, a dentadura, o olho de vidro, a aliança, o colete, o verbete, o guarda-chuva, o endereço, o recado, o pecado, a história... Ah, essa memória que nos tortura!
Quem já não teve aqueles famosos lapsos inoportunos, no discurso de improviso, no encontro casual, na prova valendo nota, no cadastro valendo nada, no telefonema valendo tudo? Quem?
Segundo estudos de técnicos americanos, só o bicho homem tem a inigualável faculdade de esquecer ou de não lembrar. Alguém, por acaso, conhece vaca esquecida? Jacaré esquece? Saracura tem a capacidade de não lembrar? Os animais não esquecem, daí porque a justa comparação quando alguém se salienta na arte de tudo lembrar – esse tem memória de elefante...! Vá que seja!
Na média, somos todos um alegre bando de esquecidos.
Análise mais acurada do assunto exigiria alguns reparos sempre úteis para o perfeito entendimento da espécie humana. Na verdade, existem os desmemoriados e os distraídos. À primeira vista parecem vinho da mesma pipa mas, justiça seja feita, são bem diversos na soma total das parcelas.
O esquecido é isso por isso mesmo, e o distraído é o que geralmente lembra errado.
O primeiro, se não lembra, não diz. O segundo, porque nunca lembra, sempre diz as coisas mais disparatadas possíveis. Diz e faz...!
Certa vez, armou-se discussão em torno de um caso bem estranho: Um sujeito que foi ao baile e esqueceu a mulher em casa. Esquecido ou distraído?
“Pura distração”, dizia um grupo, “esquecimento puro e simples”, dizia outro. “Esse é um caso de legítima desmemória”, argumentava um dos debatedores. “O distraído autêntico jamais cometeria essa gafe, iria ao baile, só que com a mulher errada...!”
Debates à parte, todos sabemos o drama que é esquecermos o que deve ser lembrado.
Para tudo há remédio, dizem estudiosos do tema. Há maneiras e artifícios para baixar, consideravelmente, a estatística do esquecimento. Aconselham os práticos que se anote tudo em uma agenda. Dia, hora, o quê, quem, onde, por quê, tudo. Não tem erro desde que não se esqueça a agenda. Não é raro toparmos, diariamente, com uma legião de fantasmas, com olhar perdido, à caça desesperada de suas próprias agendas.
E hoje temos as moderníssimas agendas eletrônicas, verdadeiros prodígios da tecnologia, tão difíceis de manusear, tão fáceis de perder. Há quem diga ter visto uma novinha em folha, dormindo alegremente na geladeira, bem ali na prateleira das saladas. Pior se estivesse no forno...
Não é consolo, mas, vendo bem, todos, um dia, já mastigamos esse contratempo. Todos! Já os esotéricos recomendam recurso bem mais resolutivo para a questão. Sugerem o denominado artifício do “terceiro elemento”. O adequado “adorno referencial”, para onde convergiria a energia emanada do esforço de lembrar, faria a grande diferença na hora H do “tilt” da memória. Uma fita no dedo, uma melancia no pescoço, uma pedra no bolso, uma corrente de cachorro na cintura, uma nota de cem dólares colada na testa, uma jibóia enrolada no braço, um tamanco holandês no pé esquerdo, um lambari dentro da pasta, uma fotografia da Tiazinha no pára-brisa e outra do Ministro da Fazenda na carteira, são maneiras infalíveis de sempre lembrar e nunca esquecer.
Lembrar o quê, mesmo?...
Ah, som! Lembrar de não esquecer...