quarta-feira, 27 de março de 2013

CURANDO GRIPES...




         O assunto: - “remédio infalível para a cura da gripe” – é dos que freqüenta, com destaque, a galeria das controvérsias e intermináveis debates. Política, economia, religião, futebol, preferência sexual e gripe são temas que fazem o homem falar, não o deixam calar e sempre o fazem discordar.
         Cada pessoa tem seu próprio entendimento a respeito da questão. As vezes o tal entendimento é altamente contagioso e se dissemina como uma peste... No caso da gripe, por exemplo, houve um tempo em que a recomendação, sem retoques, era o consumo generoso de alho, cebola e limão. Uma cachacinha para espantar a preguiça... Funciona??... As opiniões se dividem: - alguns saram e outros transformam-se em temíveis e furiosos dragões. Os próprios laboratórios farmacêuticos já não sabem mais o que dizer. Periodicamente estampam novidades na mídia (sempre caras) para cortar o mal pela raiz. E cortam mesmo, mas seguidamente levam junto o doente. Conheci um sujeito que ficou tão curado de uma gripe que hoje anda entediado pelos cantos, pedindo um espirrozinho, com saudades daquela tosse amiga e frustrado por não mais usar sua rara coleção de lenços. Continua freguês assíduo das farmácias, mas agora em busca de terapias para essa tristeza. Lá está ele, sem coriza, sem ardência nos olhos, sem qualquer esperança de febrícolas, sem dor de cabeça, sem chiado no peito e sem espirro. Parece uma estátua de granito, cheia de pombos e grilos, mas sem gripe. Alguém sugeriu que o pobre buscasse sua turma para se alegrar um pouco. Que procurasse juntar-se ao imenso e festivo contingente dos “sem”...
         Invasões, hinos, bandeiras e enfadonhas audiências oficiais sempre reanimam o ego e podem até, por um desses prodígios da natureza, resgatar aquele resfriado camarada, de saudosa memória.
         Um médico experiente me disse que gripe sem remédios se cura em 15 dias; com remédio, em 14.
         O leiteiro disse que, bom mesmo, é chá de botão. Como?? Isso mesmo: - uma xícara de chá antes e depois de dois fartos copos de leite. Repetir a dose durante 28 dias, olhando para o poente ao empinar a infusão nos primeiros sete dias. Depois, para o nascente, nos outros sete, e assim por diante.
         E se a gripe curar antes dos 28 dias?? Continue o tratamento: - para evitar recaídas e aprender os pontos cardeais.
         E se um distraído engolir um botão??
         Bem, aí o problema maior não será mais a gripe...
         Cá com meus botões acho que essa não é a saída.
         Meu vizinho da frente está desenvolvendo uma teoria interessante. Diz que para a gripe não existem meias medidas: - a “infame” tem que ser enfrentada com arma de grosso calibre. Propõe que se “pasteurize” a diaba. Sugere banhos frios intercalados com chuveiradas rigorosamente quentes. Chás em ebulição e mastigação de gelo, in natura. Ambientes cálidos na intermitência de correntes de ar fresco. E cura?? Ainda não se sabe, pois a heróica  ciência sempre tem seu tempo experimental para arregimentar suas linhas e marchar na direção da glória e da verdade. Nessa batalha, geralmente, se perdem muitos soldados, mas a empreitada terá valido à pena para a salvação da humanidade. Terá?...
         A posteridade recolherá o ensinamento: - adotando-o ou evitando-o, à qualquer preço. A idéia é original – resta saber se existem voluntários (corajosos) dispostos a enfrentar a divertida terapêutica (?). Dizem as más línguas que o cunhado do dito cujo cientista, primeira (e única) cobaia do experimento, não sabe mais o que é gripe mas, em compensação, também não sabe mais quem é, onde está, e nem por quê...(?)
         Tosse pra cá – espirro pra lá, como já dizia meu compadre: - o melhor remédio para a gripe é um bom repouso a dois dedos de carinho. E convenhamos, não existe melhor motivo para um repouso, com afeto, que uma boa gripezinha (?). Que perdoem os alhos e bugalhos, mas essa gripe é fundamental...


quinta-feira, 14 de março de 2013

O VENDEDOR




     Depois de muito caminhar em busca de emprego, Davi achou trabalho. Era uma atividade avulsa, sem vínculo, sem horário, sem mesa, sem cartão e sem carteira.
     Trabalharia por comissão na venda de títulos de participação em um mega-loteamento. Coisa aparentemente complicada mas, na verdade, muito simples de entender e fazer. Tinha que andar por aí, bater de porta em porta, ser simpático, gentil, usar bons argumentos, ter tino, tato, intuição, sedução e tudo o mais que se segue para fechar um bom contrato. Os supostos interessados nesse “negócio de ocasião”, tem sempre a rara propriedade de sumirem quando mais se precisa deles...
     Na primeira semana, Davi mais conseguiu gastar a sola do sapato do que transacionar os tais títulos. Alguns disseram que iriam pensar e que voltasse semana que vem; outros responderam com um fulminante não; a maioria, porém, disse não ter dinheiro para bancar a generosa oferta. Era desanimador! Com cabeça recostada e os pés de molho, Davi tentava recolocar as idéias em ordem. Se ao menos descobrisse um ricaço, desses para quem, coisa pouca é bobagem, poderia de uma tacada só recuperar o tempo perdido, vendendo todo o lote de ações. Pesquisou, pesquisou até que encontrou sua terra prometida.
Tratava-se do fulgurante nababo Dr. Gusmão Dendém. Homem respeitadíssimo, ocupado, compromissado, solicitado, que chafurdava no dinheiro vivo. Descobriu também que esse reizinho das finanças, saído do nada, tinha uma bela propriedade justamente ao lado do loteamento em questão. Era ouro sobre azul... Levou duas semanas para marcar uma entrevista com o tal Dr. Gusmão. Teria levado mais se não lhe ocorresse a feliz idéia de encher de flores e bombons a bonita mesa da quadrada secretária.
     Vestiu o melhor terno (único, diga-se), a melhor gravata, borrifou-se com o perfume mais caro, calçou os de morrer (bem lustrados) e foi para o encontro. Quando, enfim, entrou na sala do apoderado, quase desfaleceu de tanto luxo. O tapete, a escrivaninha, as cortinas, os quadros na parede, os troféus na prateleira, o lustre, as poltronas – tudo era de rico. Depois dos cumprimentos e das gentilezas, sentou-se, abriu a pasta e começou sua ladainha:
-         “Pois, Dr. estou aqui para lhe oferecer um excelente negócio”.
-         “Que bom – estamos aí para isso”- disse, educadamente, o esperto Dr. Dendém.
-         “O que trago para o senhor é”... – nisso toca o telefone e Dr. Gusmão pede licença para atender. Davi assentiu com a cabeça. Era um interurbano de Nova York. Gastou-se nisso mais ou menos dez minutos. Terminada a ligação o próprio Dr. deu sinal para a retomada do assunto:
-         “Muito bem, onde estávamos?”
-         “Bem, eu dizia que nada mais sólido, hoje em dia, que...” – e novamente tilinta o incômodo telefone. E lá se foram mais quinze minutos de lero-lero com um compadre que andava na Patagônia.
-         “Desculpe, mas telefone é telefone, a gente não pode deixar de atender, pode ser urgente. Mas, continue por favor”.
-         “Como dizia, a aplicação em terras é lucra...” – e mais uma vez toca o famigerado telefone. Dr. Gusmão atende:
-         “Sim? – oi, alô Bonifácio – o que é feito da tua vida?...”
Davi levanta-se, timidamente, e diz, de forma cordial, quase em sussurro:
-         “Eu volto outra hora...”
-         “Mil perdões” – diz Dendém, simpaticamente colocando uma das mãos sobre o fone emissor. “Volte amanhã”.
-         “Perfeitamente. Eu volto. Um abraço” – disse e acenou, baixinho, o grande Davi já na porta.
Passou rápido pela secretária-mesa e se jogou de novo no burburinho da rua. Buscou o primeiro orelhão, carregou-o de fichas e discou para o Dr. Gusmão. As duas primeiras deram sinal de ocupado, a terceira deu linha.
-         “Alô – quero falar com o Dr. Gusmão, é urgente”.
A secretária passou logo a ligação:
-         “Alô, quem fala?” – era o próprio Dr. Gusmão.
-         “Aqui sou eu”.
-         “Eu quem?”
-         “O Davi”.
-         “Que Davi?”
-         “O vendedor que há pouco estava na sua sala tentando vender um título de participação de um loteamento muito bem localizado, por preço módico e patati e patatá... e um outro qualquer que estiver aí que espere... o senhor não pode perder essa oportunidade, facilitamos o pagamento, damos desconto. Tá fechado?”
-         “Fechado!”

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

PROGRAMAS




       Não porque queiram mas por rigorosa força de ofício, os meios de comunicação tem sido, literalmente, invadidos por notícias de assaltos e coberturas de seqüestro, motins, burburinhos e congêneres. Se repararem bem, e os financistas já fizeram tal conta, mais da metade do espaço da mídia já é refém desse tipo de informação. Programa, eu diria...
         Por que não providenciar patrocinadores especiais e específicos para esses formidáveis concentradores da atenção pública??
         Um assalto pela manhã, um seqüestro vespertino, uma tentativa noturna e por aí vai se adensando o script dessa interminável novela que é a convivência humana. Não preciso repetir que seria um tanto inoportuna e comercialmente inócua (para não dizer desastrosa) a propaganda de sabonetes cheirosos e perfumes extasiantes para auspiciar a cobertura televisiva e radiofônica desses eventos. Não levam ao caso. Mesmo porque, há muito foram abandonados (lamentavelmente) os crimes odorizados e os assassinatos em espumantes (e poéticas) banheiras, como certa vez sugeriu o gênio sempre reverenciado de Hitchicok. Não servem, também parece óbvio, reclames de polpudas aplicações financeiras, relógios à prova de tudo (menos de roubo), carros paradisíacos, roupas deslumbrantes, jóias ofuscantes e palacetes plantados em jardins de sonhos. Tudo isso atrai o gatuno.
         A opinião geral autoriza afirma-se que anúncios de armas (de todos os calibres), de fechaduras anti-roubo, de alarmes, tranqüilizantes (orais e injetáveis), seguros de vida, celular próprio para usar-se em porta-malas e cubículos, gás lacrimogênio, agentes de segurança pessoal, poção da invisibilidade, parrillada em pílulas especial para seqüestradores, vidros à prova de canhão, bíblias, CD do Tiririca, escolas de defesa pessoal, relatório dos precatórios, camiseta do Batmam, etc – são tremendamente procedentes nos intervalos desses sobressaltos do cotidiano. E já pensaram no alto grau promocional dessa mídia modernamente explícita e convergente?? Vejam:
         “Para assaltos matutinos, use revólveres da marca “Trabuko”, calibre 44 não falham e já vem com certificado de legítima defesa”.
         “Não deixe que a vida de sua família escoe pelo cano de uma carabina qualquer assine hoje seu seguro de vida “fé e esperança” e morra de rir e de velho”.
         “Contra ladrões de todas as classes, use fechaduras “decreto lei” as únicas que fecham com você, por você e para você – a fechadura mais democrática e incorrompível do país”.
         “Para sua segurança pessoal recomendamos Jairo (vulgo tripa de aço) – forte, discreto, ágil, bilíngüe, digitador, sertanejo, primeiro grau completo, sincero e boa praça – pegue Jairo e largue o resto...”
         “Sequestrin é pílula do sossego – para o seqüestro e similares use Sequestrin – a pílula que resgata seu bem estar – antes, durante e depois...”
         “Em assaltos e seqüestros utilize gás lacrimogênio/´´espirro” – o gás que produz efeitos mesmo sem causas. Use gás. Na compra de cem m3 você leva, de graça, uma máscara anti-gás...” 
          “Poção da invisibilidade Merlin – para você se fazer ausente quando a confusão estiver presente – escape – quem não é visto não é lembrado – nem assaltado...”
         “Karatê Ka-Ku-Fun, a melhor técnica de defesa pessoal – a única que defende de uma vez por todas e não deixa pistas...”
         “Celular “sequestron” – o que dá linha mesmo que você esteja na amarra. Telefone acima de qualquer suspeita e a prova de incompetências gerais. Ligue para nós. Retornaremos a ligação assim que der linha...”
         “Para chatear e desequilibrar assaltantes e seqüestradores rode Cds do Tiririca – os únicos que são unicamente enjoados”.
         Pois é – estou falando e falando – impunemente – e ainda não providenciei meu jantar. Vou fazê-lo agora, na tranqüilidade da noite pedritense.
- “Mãos ao alto – é um assalto”.
- “Calma – tudo bem – leva o pacote”.
- “O que tem aí?”
- “Galinha assada – tá quentinha”.
- “Não gosto de galinha – quero grana”.
- “Estou liso. Só tenho cheque”.
- “Serve”.
- “Tem que ser pré-datado. Só pra semana que vem – tá certo?”
- “Tudo bem, chefia – podes confiar”.
        É isso aí – ladrão honesto é outra coisa...
        Este assalto está sendo transmitido (ou será reproduzido) por conta das pílulas Ok, das armas “alvo” e da Escola de Defesa Pessoal “pé no pescoço”.
        A seguir mais uma atração de sua rede sucesso – Lar doce Lar – um oferecimento dos tanques de guerra urutu...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

UNANIMEMENTE ANÔNIMA...!




         Terêncio era uma figura humana quase curricular. Em todos os cantos, em qualquer roda, marcava sua presença sempre espirituosa. Na preguiça das tardes ou na eloqüência das noites, aparecia, capengante, para mudar a história ou confirmar o destino. Com o hábito, tornou-se indispensável nas reuniões mais corriqueiras ou nos encontros mais reservados. Às vezes não dizia nada. Apenas seu resmungo inconfundível (e intransferível) acusava sua densa e espalhafatosa presença. Outras vezes, era verborréico, ousado, filosófico e incomodamente intrometido. Estava sempre pendurado nas limosas beiradas do poder. Convivia, fraternalmente, com autoridades, com chefes políticos, com próceres, com líderes populares, com ciscunstantes estranhos, com artistas, malabaristas, bacharéis, coronéis, enfim – Terêncio estava sempre onde se desenhava a equação da decisão.
         Terêncio tinha o particular poder de aspergir um sutil comentário para catalizar o debate. Conhecia todo o mundo e sabia de tudo! Sabia da dinâmica sócio-política do lugar. Morava no hotel mas habitava a alma da cidade...
         Tinha ares de senador. Falava como profeta, andava como fariseu, invocava verdades magnânimas, filosofava em plena praça, bebia café em copo e formulava perguntas, engenhosamente, irrespondíveis. Terêncio era um ensaio vivo da lógica do absurdo... Era tudo e não era nada!
         Certa feita, presente em uma expressiva reunião política, sentiu-se encorajado a discursar. Homenageava-se, na ocasião, uma brilhante e insinuante liderança governamental, responsável por vários e brilhantes fatos e feitos na área da educação oficial. Depois de longa peroração elogiosa pela presença de tão ilustre autoridade, fez enfática pausa oratória e tonitroou, sem reservas: - “a ignorância governamental é unânime!...”
- O auditório colheu o constrangimento em silencioso sobressalto. Alguém puxou a manga do casaco de Terêncio, à guisa de reprovação, querendo mostrar que o próprio governo ali estava representado na figura do ilustre Secretário da Educação que, gentilmente, visitava a cidade. Terêncio, então, recompôs-se, engolindo, com veemência, a própria pausa para complementar: - eu me corrijo: - “a ignorância é unanimemente anônima”...
Até hoje, e pelos dias que virão, jamais saberemos se isso foi uma crítica ou um elogio (?)...
O fato é, que, depois disso, generosas verbas governamentais aqui aportaram para proveito de todos nós. E os proveitos  eleitorais não foram “unanimemente anônimos”...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A Coisa


Varrendo a sala, Frauzina achou um botão preto de paletó. Não era bem um botão, nem bem preto era. Na verdade, era um pequeno cone com três furinhos e uma diminuta haste no centro. O que era aquilo??
Frauzina, mulher sofrida, com tantos ainda por criar, não muito vocacionada para indagações mais profundas, pôs de lado o estranho objeto a fim de entrega-lo ao patrão. Não era brilhante nem sonante. Não era pesado e sequer tinha alguma inscrição. Não valia nada mas lixo não era. Era o que parecia. O que era, então?
Pelo sim, pelo não, o melhor era entregar “a coisa” ao seu Getúlio, o patrão, homem severo, porém justo. De repente poderia lhe valer uma gorjeta extra...!
Será que aquela coisinha não era parte importante da geringonça complicada que o Dr. Getúlio vive lidando e que tinha um nome até bem indecente? Melhor que não fosse, pois poderia pensar que a estabanação de Frauzina é que tinha causado o desgarramento daquela peça vital de seu intocável e amado computador...
Temerosa e cheia de dedos, Frauzina entregou ao chefe, na hora do almoço, o tal primo enjeitado do botão de paletó.
Dr. Getúlio, cidadão de muitos afazeres e diversas atribuições, examinou o pequeno cone com medida curiosidade entre apressadas e compulsivas mastigadas:
-         Ah, ah, uh, uh, o que é isso, Frauzina?
-         Não sei, não senhor.
-         Como, não sabe?
-         Não sei, Dr. Getúlio.
-         Onde estava?
-         Ali no lado do sofá.
-         Que sofá?
-         O da sala, sim senhor.
-         Que sala?
-         A das visitas, sim senhor.
-         Eu lá tenho tempo para visitas, Frauzina?
-         Pois é, não, sim senhor.
-         Visitas... ora bolas...
-         Parece um botão, doutor...
-         Parece mas não é. Onde já se viu um botão desse jeito?...
-         Pois não, sim senhor.
-         Isso deve ser coisa de comunistas...
-         Como disse, doutor?
-         Não disse nada. Só pensei...
-         Sim senhor.
-         Ah, então também achas que é?
-         Senhor?...
-         Nada, nada, traz o feijão.
-         Hoje não tem – a panela estragou...
-         Estragou?
-         É sim, não quer cozinhar...
-         E panela tem querer, Frauzina?...
-         Pois é, a panela não presta mais...
-         Então já sei, esta porcaria é da tal panela...
-         Da panela não é, não senhor.
-         Ué, por quê?
-         Porque tá furada...só...
-         E eu mereço ter panela furada?...
-         Senhor?
-         Deixa prá lá.
Nisso chegou, efusivo, o sempre oportuno secretario Etelvino, mais conhecido por Vino um serviçal de mão cheia.
-         O que é isso, Vino? – indagou Getúlio, segurando “a coisa” com decisão.
-         Isso é um retentor de motor de moto, está visto, doutor.
-         Que moto; Etelvino? Na sala, no lado do sofá?...
-         Então é um terminal do pino central da engrenagem principal de uma moto-serra...
-         Tu tá ficando louco, Vino...?
-         Vendo melhor, parece ser a conexão terminal de um respirador artificial...
-         Eu desisto!
-         Espere, espere, isso é a peça de engate do mecanismo de propulsão de uma nave espacial, não tripulada.
-         Pode parar, Etelvino! Chega, deu para tua fértil imaginação...
-         Mas que parece, parece...
O que seria aquilo afinal?
Seria a conta de um rosário futurista? Seria a trava mestra do cofre do FMI? Ou seria a chave de um míssil intercontinental?
Há quem diga que aquilo era apenas um pedacinho, descartável, de um inocente veideogame. Poderia ser o componente de uma geladeira boa e barata ou até mesmo parte de um telefone de um manso corretor da bolsa.
Não faltaria quem afirmasse que aquilo pertencia aos Sem Terra. Seria grande o grupo dos que entendiam que a coisa, fosse o que fosse, deveria ser privatizada, sem demora.
Idéias de um lado, sugestões do outro, Getúlio resolveu pôr fim à questão. Pegou a coisa, examinou com lente, apertou entre os dentes, sacudiu, bateu, esfregou na camisa, assoprou e jogou pela janela. Em menos de trinta segundos ouviu estrondo infinitamente crucial: Tinha dado inicio a terceira guerra mundial...



DOR NO VINTE E QUATRO


Numa concorrida sala de espera médica, Juvêncio esperava a vez de consultar. Enquanto aguardava, grudou o olho num desses mapas do corpo humano onde aparecem os órgãos e as regiões, devidamente numeradas. O estômago era o seis, a laringe o 12, o pulmão direito estampava o número dezenove, o fígado o oito, o pâncreas o sete e assim por diante. Juvêncio estava encantado com aquela aula silenciosa de anatomia – tão simples e tão clara – para se entender e explicar as coisas que a gente sente no corpo e que, muitas vezes, não sabe dizer. Enquanto olhava, atentamente, pensava em sua sogra, coitada, que tanto tinha sofrido com problemas no 21...
Já o compadre Alípio, que não tinha mais o dezesseis nem o 32 estava gordo e corado fazendo planos para, um dia, se ver livre do 22.
Quando chegou a sua vez, Juvêncio entrou, firme e confiante no consultório, revelando, de cara, que seu problema maior era no 24. Na verdade, a dor rebatia no dezoito, escorria pelo dezessete mas ia se aninhar no 24.
-         É aí, doutor, sem mais e nem menos. Não tem erro, pode acreditar.
 O médico, bom também de psicologia, inseriu-se no contexto do diagnóstico numeral de Juvêncio.
-         E o 25, como está?
-         Está ótimo, doutor.
-         E o vinte e seis?
-         Ah, esse tá novinho em folha...
-         É aí mesmo doutor.
-         Pois, então, vou te dar este remédio que vai resolver.
Coincidentemente a droga vinha num vidro com 24 drágeas e deveria ser tomada de 24 em 24 horas.
Juvêncio foi para casa feliz e não mais se queixou.
Choveu, ventou, passou. Lá um dia, depois de lauta feijoada e caipirinha generosa, Juvêncio voltou a sentir dores intestinais. Mas não era bem no 24 – era mais para baixo. Fechou os olhos tentando lembrar o mapa do corpo humano e os números dos órgãos – memória era que não lhe faltava – e descobriu que seu mal, agora, era no 48.
-         Tens que voltar lá no doutor – sentenciou a mulher, do alto do seu crochê, olhando a novela das sete.
-         Agora só segunda e hoje é sábado. Não vou incomodar o homem que deve estar descansando...
-         É, mas daqui até lá, muita coisa pode acontecer – comentou a experiente sogra, enquanto liquidava uma fornada de bolinhos de milho.
-         Mas eu não vou incomodar o doutor – disse, determinado, Juvêncio, enfiado na bombacha de descansar.
-         E, sabe do que mais (?) – eu mesmo sei como resolver este assunto.
Me passa os comprimidos pra cá – pediu, imperativo.
-         Mas esse são para o 24. Vêncio – alertou a mulher, levantando os olhos da costura.
-         Não interessa. Me passa pra cá e traz um copo de leite.
Decidido, pegou duas drágeas e tocou-as garganta a dentro, com um gole gordo de leite fervido que ele próprio tirara na véspera.
-         Pronto – o que tem que ser vai ser...!
-         Credo, homem, tomaste o remédio do 24... – disse a cunhada, com voz falseada e crítica nos olhos.
-         Então tá tudo certo. Meu problema agora é no 48 e tomei duas do 24 – não tem erro...
E não tinha. Juvêncio melhorou, para pasmo geral de sua platéia doméstica e assombro especial da medicina...
E siga o baile...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

FOGÕES




         De barraca e caravana, resolveu se aventurar pela selva consumista em busca de boas caçadas. Depois de se abastecer, lautamente, no perigoso e movediço reduto das liquidações, unindo o útil ao agradável, decidiu embrenhar-se no mato cerrado dos eletro-domésticos. Queria caçar um fogão à gás, tão oportuno quanto necessário, para cozer a farta merenda nestes tempos de moeda forte.
         Logo percebeu que há fogões e fogões. No relance parecem todos iguais mas quando a observação dos detalhes salta pelos olhos, entra pelo nariz, fere a ponta dos dedos, despetala a flor da pele e pede abrigo na orelha esquerda, os fogões são bem diferentes entre si. Uns tem isto e aquilo e outros não. Na verdade, todos cozinham, mas uns mais que outros – mais e melhor – diz a propaganda.
         Notando imensa diferença de preço entre dois fogões, aparentemente iguais, quis saber a razão da gritante distinção. O vendedor, cheio de si, robotizado pelo reclame – mídia/marketing – falou, com garbo, do altíssimo de sua diferenciada qualificação:
-         “É que este tem forno auto-limpante...!”
-         “Como assim?”
-         “O forno auto-limpante, está visto”!
-         “Significa, então, que, uma vez sujo, ele próprio tomará a iniciativa de limpar-se, poupando penoso e pesado trabalho à sofrida e incompreendida dona de casa??...”
-         “Mais ou menos...”
-         “Como (?) – mais ou menos...?”
-         “Sim – veja bem – o material das paredes de seu forno é anti-aderente e isso, por si só, facilitará a limpeza...”
-         “Afinal, quem limpa quem??”
-         “Ora, cada um limpa seu fogão. Só que este, por suas características intrínsecas e funcionais tornará mais rápida e amena a tarefa da limpeza”.
-         “Ah, bom. Pensei estar diante de um prodígio que, sem ninguém mandar, providenciava sua própria higienização logo após a divertida rotina de assados, gratinados, cozidos, etc”.
-         “Aí a senhora também está querendo demais...”
-         “Não – acho que a propaganda é que está falando demais...”
Mesmo com a discussão (ou por causa dela) resolveu comprar o fogão.
No fundo, alimenta a esperança de que a geringonça, de repente, magicamente, como na história de Gepeto, surpreenda o mundo (e especialmente a cozinheira) e saia por aí, subvertendo as paralelas da cibernética, assumindo tarefas e funções nunca dantes cozinhadas. Além de limpar-se, como qualquer mortal decente faria, reservará para si obrigações outras tais como encomendar (e pagar) seu próprio gás; arear as panelas; acender-se e apagar-se com discreção na hora certa; negar-se de cozinhar gorduras saturadas em nome da proteção às coronárias de seus queridos donos; não permitir que o leite derrame, que o churrasco queime nem que o souflê se inflame – enfim – um fogão primeiro-mundista, consciente, providente, competente, digno da tecnologia formalista ( e moralista) que o concebeu.
O fabricante terá o cuidado de não apor um rabo no prodígio para que donos mais distraídos não o confundam com Max, o cachorro bem adestrado da família.
Apesar do alarido da propaganda, esse fogão-prodígio ainda não está disponível no mercado. Felizmente! Não será por muito tempo. Logo, logo – no passo em que vamos – hospedaremos, em nosso lar (nosso reino), genialidade desse tipo. Pagaremos alto preço por esse progresso. E não, necessariamente, em dinheiro. Pagaremos o preço da partilha compulsória de nossa autoridade e independência. Um fogão capaz de tudo isso, numa segunda-feira qualquer, baterá na mesa exigindo poder de veto em nossas domésticas decisões.
Vai querer influir na educação das crianças, no penteado da patroa, na gaveta do patrão, na cor do carro, na marca da televisão, enfim – será um chato de galochas movido à gás, eletricidade ou o raio que o parta... Seu poder de barganha é poderosíssimo: - faça-se o que ele quer ou não cozinha... Já imaginaram?...
Antecipo a cena seguinte dessa solução sem volta. Na beira de uma sanga barrenta, recolhido ao próprio tédio, vejo o dono de casa, munido de primitivo anzol, tentando pescar o almoço para, enfim, cozinhá-lo no fogo-fátuo de uma improvisada e desarranjada fogueira, choramingando o destino da fumaça que entra pelos olhos e se perde na imensidão...
E viva o progresso!...
Sejamos reacionários, enquanto é tempo. Fogão é para cozinhar: relógio é para marcar as horas; cadeira é para sentar; sofá é para namorar; televisão é para divertir; carro é para conduzir; vassoura é para varrer; faca é para cortar; cama é para dormir; camisa é para vestir; cigarro é para fumar; telefone é para comunicar; estufa é para aquecer; cofre é para guardar; água é para beber; poesia é para sensibilizar; pente é para pentear; chave é para abrir...
Convenhamos – chave também serve para fechar. Chave se perde e, muitas vezes, nunca mais se encontra.
Para que servem as coisas?...
O tempo dirá!...
O tempo ou o computador?...
O que diz o fogão?...!